terça-feira, 15 de setembro de 2009

Saudade é isso

Terça-feira, 19h50. Lá fora, o céu começa a escurecer. É finalzinho de verão, mas a estação já cedeu há muito tempo. Há alguns dias que faz frio; os casacos mais pesados saíram do armário, assim como as echarpes que fazem as vezes de cachecóis. Estamos naquela época do ano em que as janelas já não podem mais ficar abertas, mas ainda é cedo para ligar os aquecedores.

Geralmente, a esta hora, meu marido já chegou em casa. Hoje, ele vai ficar trabalhando até mais tarde. Janto, deito na cama um pouco e olho para o céu escurecido lá fora. As lembranças me invadem.

Minha memória pula para meus últimos dias no Brasil. Dia 1º de junho, onze dias antes do meu casamento, eu estava apenas com minha mãe e minha irmã em casa. A família ia começar a chegar no dia seguinte, logo seriam dezenas de pessoas pelos corredores, quartos, salas, banheiros, cozinha. Não haveria um lugar onde não estivesse alguém fazendo alguma coisa. Mas agora estamos só nós duas, eu e minha irmã, sentadas ali no quintal, no degrau da porta da sala de TV. O céu está igualmente escuro, algumas estrelas despontando, o dia chegando ao fim. Minha irmã se levanta e entra, eu fico ali. Me pego pensando, naquele instante, que é o meu último momento mais íntimo com a casa. Só nós e a casa onde passamos boa parte da infância e toda a adolescência.

Nos últimos meses, eu havia passado várias tardes sozinhas ali trabalhando, com minha mãe em Minas e a Nádia no trabalho. E eu gostava de estar assim. No final da tarde, a Nádia chegava, tomava café, nós colocávamos as conversas em dia e ela se arrumava e saía para a faculdade. Às vezes, quando ela não tinha aula, víamos um filme. Acho que aproveitamos pouco do que poderia ter sido.

Quando minha mãe estava em casa, ela ficava fazendo seus trabalhos manuais na sala, ou na sala de TV, ou mesmo na cozinha. Eu ia lá de vez em quando, para espairecer um pouco. Batíamos um papo, ela me contava alguma coisa que havia visto na TV ou que tinha acontecido recentemente. Quando meu pai também estava em casa, um deles fazia café lá pelas quatro da tarde e levava uma xícara para o outro, às vezes acompanhada de um pão francês ou de uma fatia de queijo Minas. Me dói pensar que é uma experiência que não vou ter mais como da minha casa. Agora, todas as vezes que eu presenciá-la, será uma cena isolada, na casa dos meus pais. Ela não é mais minha, é deles.

Minha memória pula de novo, agora para a última vez que o David esteve em Niterói antes de vir para a Alemanha pela primeira vez, há dois anos. Ele me ajudou a mudar os móveis do meu quarto de lugar, e depois me ajudou a arrumar tudo, jogar coisas fora, colocar outras no lugar. Foi no último dia mesmo. No dia seguinte, ele viajou para Santos e, alguns dias depois, de São Paulo para Frankfurt, trazendo um pedação do meu coração com ele.

Mudanças têm esse poder de imprimir imagens, cheiros e ruídos em nossa memória. Posso fechar os olhos e me imaginar na casa dos meus pais, neste mesmo horário: o cachorro do vizinho latindo, minha mãe cantando enquanto se arruma para o ensaio, meu pai esquentando o jantar no microondas enquanto vê jornal na TV da cozinha, meus sobrinhos brincando, cigarras e grilos cantando lá fora, talvez o som do meu próprio teclado do computador.

Também consigo me lembrar fácil de outros marcos na minha vida: estranheza saindo de Niterói em 1989 e chegando em São Luís em seguida; memórias de viagens diversas; saudade me despedindo da minha irmã que foi para o seminário em 1991; saudade de mais uma vez me despedindo da outra irmã que casou e foi morar fora em 2001; nostalgia e nó na garganta abraçando amigos no meu casamento; surpresa, novidade e cansaço chegando na nossa casa nova na Alemanha. Partidas, chegadas, mudanças.

É tudo muito melancólico, eu sei, mas também é muito bom. A saudade é gostosa, faz a gente lembrar do que a gente ama e valoriza. Momentos preciosos que não voltam mais, e que por isso mesmo têm um lugar muito especial no coração. Muitas vezes não percebemos a importância deles enquanto acontecem, mas em algumas poucas ocasiões temos essa sorte. E, naquele 1º de junho, eu pude desfrutar do meu último cair da noite, a sós com a nossa casa.

20 comentários:

Ron disse...

Seu texto me deu um ânimo, e eu não sei o motivo.

Tenho saudades de alguns momentos também, que não vão mais se repetir.

Ana Elisa disse...

Estava sentindo falta das suas postagens.

:D

As (boas)lembranças estão aí para isso: nos dar aquela "saudade boa" quando eles voltam à tona. E a vida é assim mesmo: se agora as experiências serão de seus pais, você também terá suas próprias experiências, agora na sua casa, com a sua própria família.
É a vida seguindo seu curso natural, resta a nós trilharmos da melhor maneira possível.

Erika disse...

Vc com esse post, me fez lembrar de tantos momentos bons que passamos na sua casa em Niteroi... bateu um saudosismo terrível!



*topercip

cris disse...

Ô Ju, agora você compreende o que eu já senti também depois de me casar, embora, claro, numa intensidade que eu não posso imaginar, pois estou aqui por perto, e você e a Lidi foram para longe. Mas essa é a beleza de cada uma seguir o seu caminho, traçado por Deus. A nossa certeza mesmo é a de nos encontrarmos juntos e inseparáveis no céu!Bjs.

Rose Vaz disse...

Juju,vc me fez chorar,so um pouquinho mas fez.Voltei a 26 anos atras e lembrei que eu olhava a casa e pensava:essa agora é a minha casa,sou dona de casa,(meu Deus que antigo)Mas mudando um pouco a conversa,lembra que no dia 02 de junho eu cheguei com a Erika e a Eline?

Saudades das nossas conversas madrugada a fora!

Bjus!!

Anne disse...

Você caprichou mesmo, hein! Deve estar com muita saudade, eu sei como é.
De vez em quando me pego lembrando das tardes quietas e dos cafés lá de casa. Nunca mais vai ser assim pra vc, fique já sabendo, porque sempre, eu digo s-e-m-p-r-e que vc voltar à Niterói a casa vai estar lotada de gente pra te ver!!!
Com o tempo a saudade diminui e vc vai passar a sentir falta da sua casa e do seu canto quando sair (graças a Deus que isso acontece, porque senão a gente morria de depressão!!!)


Squallu

Morpheu disse...

Eh soh eu chegar um pouco mais tarde, trabalhar um pouco mais que ela jah fica assim morrendo de saudade... =p

Eu jah te falei que vc escreve muito bonitinho?! pisc pisc

te amo gatinha linda

vellywis

Nádia disse...

O David não entendeu q a saudade é da gente, não dele!! hehehehehe :p

Júnia, vc me fez chorar!
Tbm acho q gente aproveitou pouco dos nossos últimos meses juntas...e eu já tinha te falado isso antes, mas como sua cabeça na época era só casamento...é bastante compreensível, né?

Dia desses, quando fomos no rodízio comemorar o aniversario da Elisa, eu estava voltando da faculdade direto pra lá, e no ônibus tava pensando "vou contar tal coisa pra Junia quando chegar na pizzaria..." só ai caiu a ficha e percebi q vc não estaria lá! Aquela foi uma hora q me deu vontade de chorar, ali, dentro do ônibus mesmo...segurei!

Saudades desses tempos q não voltam mais...

Bjãooooooooo

antst

Erika disse...

Eu notei uma coisa...eu nunca senti saudade de uma casa em particuar ou algum lugar que morei, pelo menos não com essa intensidade que a Junia descreveu. Acho que é porque mudei de lá pra ca e de cá pra lá...mas as pessoas...eu me lembro de chorar por horas so de pensar que estava deixando rpa traz meus amigos, minha familia. Eu sinto falta de vcs!


disma

LoreLoves¨theLord disse...

Nossa, Ju, foi tão lindo... emocionou demais.

Mima disse...

*snif snif* Nao passei por isso, mas tenho boa imaginacao. I easily relate to people >.<

=****

Mimi disse...

Pois é, a gente tá setenciadas a viver de saudade. E o melhor de tudo é conseguir olhar the bright side dela ;)

Alexandre Capra Fritsch disse...

Muito bonito o texto Junia :)

Natália disse...

Texto mais lindo do blog =)

Apesar de não ser parente, não conhecer a casa e nem ao menos o Rio de Janeiro, também chorei =P

Anne disse...

Jujuba, atualiza aí!!! Conte os micos nesse país!!!

balmir

Anne disse...

Tive que fazer mais um comentário só por causa da palavra de verificação.
"Bilisga", menina!

Debby disse...

Ai meu Deus, esse post aumentou os índices de desidratação por lágrimas no mundo inteiro *-*
Tão lindo o seu estilo de escrita, adoro!
A saudade quando bate é assim mesmo, vc traduziu bem aqui...
"Saudade é ser, depois de ter." (Guimarães Rosa)
Ps.: vc é uma fofa nos coments lá no meu blog, viu?
Amo-te

Küssen

'conspu'

Walter Cruz disse...

Em alguns dias voltarei a minha cidade, por algum tempo, para auxiliar na preparação do casamento da minha irmã. Verei alguns amigos que não vejo a anos, e tenho vontade de devorar esses momentos!

E tenho saudade também de tudo o que fui neles, e do que eles foram em mim.

E tenho uma saudade imensa de tudo o que ainda não vi...

Seu texto me evoca Sehnsucht (http://en.wikipedia.org/wiki/Sehnsucht) que Deus lha abençoe por isso!

Cintia disse...

poxa junia vc foi muito,muito,muito usada por Deus quando vc descreveu o que é realmente sentir saudades.Não saudades de coisa bobas que as vezes nós falamos ,sem pensar até mais saudades de coisas importantes de se viver sentir fazer,coisas corriqueiras,como uma simples caneca de café com as nossas irmãs nossos pais,isso no dia a dia é muito banal,sem importancia mas quando nos mudamos (principalmente vc)é que damos realmente o valor daqueles simples momentos que passaram e não voltam nunca mais,vc me fez chorartbm linda.Bjs e eu tenho saudades de vcs.

Dani Mota disse...

Poxa amiga, q saudades!
Vc descreveu maravilhosamente bem este sentimento. Me identifiquei d+ com tudo aquilo...
Posso nunca ter feito nenhum comentário antes, mas sou fã n.1 do seu blog!! Vc escreve muito bem!!! Parabéns!
Bjões