sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Viver como um narniano, ainda que Nárnia não exista

Texto #6 da Semana C.S. Lewis

Este post é dedicado a todos os narnianos, meus compatriotas, em especial àqueles que conheço de fóruns, do orkut, da lista do yahoo, do Narnianos.com e principalmente ao meu marido, que entende minha mania e me incentiva sempre!

Me pediram para falar aqui no blog um pouco sobre Nárnia. O Josh achou que estava faltando falar sobre este fantástico mundo (ele também achou que eu deveria fazer um texto sobre 'Til We Have Faces, mas acho que isso é muita areia pro meu caminhãozinho, não só por ser um livro extremamente filosófico, mas também por ser simplesmente o livro favorito de Lewis).

Mas há um motivo para eu ter evitado falar sobre Nárnia: eu fiquei intimidada. Tenho medo de falar e não fazer jus à grandeza da obra, e principalmente de não conseguir exprimir exatamente o que os livros são para mim. Mas eu vou tentar.

Para começar, acho que devo falar sobre o que é ser fã de uma história rotulada como infanto-juvenil e fantasia. Já vou avisando: não é fácil. A primeira reação da maioria das pessoas quando me veem falando com entusiasmo sobre Nárnia é dar um sorriso condescendente. Nem quero imaginar o que passa pela cabeça de tais indivíduos. No mínimo pensam coisas como "Mas essa macaca velha não tá meio passadinha pra ficar lendo histórias de crianças?" Lamento muito informar, mas o símio idoso aqui não sou eu, é você, caro colega. Aqui a Nação Narniana vai se lembrar do macaco Manhoso de A Última Batalha e se divertir um pouco. Quem está sorrindo agora?

Eu acredito que o mesmo, ou algo parecido, aconteça com quem é fã da trilogia O Senhor dos Anéis e outras obras de Tolkien. Afinal, qual é o problema das pessoas com a literatura fantástica? Se dois brilhantes acadêmicos britânicos, um de Oxford e outro de Cambridge, dedicaram parte de suas vidas para criar mundos fantásticos nos quais podemos viajar e sonhar, quem somos nós para falar alguma coisa? Eu definitivamente não gosto de gente sem imaginação e que não sabe se maravilhar diante das coisas simples da vida. (Talvez o fato da Trilogia do Anel de Tolkien ter sido transportada para as telas de cinema e resultado em filmes "sérios" contribua para a diminuição do preconceito em relação a esta obra. Mas quem leu sabe que os filmes cortaram boa parte da magia e do encanto presentes nas páginas dos livros.)

Para quem está de fora e não entende muito bem esse papo de ser Narniano e acha que é bobagem, aqui vai uma breve explicação: As Crônicas de Nárnia nunca foram pensadas por Lewis para serem uma espécie de evangelização disfarçada para crianças. Não. O que aconteceu, segundo o próprio Lewis, é que o cristianismo, por estar tão presente na vida dele, acabou perpassando quase toda a sua obra de ficção (que, diga-se de passagem, floresceu após sua conversão). Não havia outro jeito, foi apenas natural que acontecesse. Mas, mesmo com isso, as Crônicas de Nárnia não são livros direcionados para o público cristão. Conheço inclusive muitos ateus e inúmeros adultos que são fãs da septologia. Acho que isso é um dos maiores atestados da qualidade da obra de Lewis, além de sua permanência como sucesso de leitura após quase 60 anos.

Então, aqueles que se denominam Narnianos têm um lema: Quero viver como um narniano, ainda que Nárnia não exista. A frase é do livro A Cadeira de Prata, a quarta crônica, e é dita por um paulama (longa explicação, é melhor você ler o livro) quando a Feiticeira Verde tenta convencer a ele e mais três humanos de que Nárnia não existe. Ela resume a filosofia de quem sonha com as terras além da SalaVazia e com o Grande Leão. Os motivos de cada um eu não sei, mas eu particularmente gosto do ar, da sensação, da presença de Nárnia, que sinto bem forte, quando leio os livros; da alegria ao ver que Aslam vai aparecer a qualquer instante; da possibilidade de enxergar Nárnia através dos olhos de Lúcia, a mais doce personagem e também a mais chegada ao Grande Leão; das semelhanças que vejo entre Aslam e seu equivalente em nosso mundo e o amor daquele pelos narnianos, tão profundo quando o de Jesus por nós; e gosto também do tipo de relacionamento indireto que tenho com Lewis.

Citando Bruce Edwards, "Lewis vive mas ao mesmo tempo já se foi; eu ouço a voz dele, sinto sua presença, ele fala comigo pelas páginas, mas ele não está ali. Este é o poder da palavra escrita."

9 comentários:

Morpheu disse...

Muito bom o seu texto meu amor,

E eh muito bom te incentivar ;).
p.s. filme nenhum faz Juz a versao do livro.

neoqeav


milati

Natália disse...

"Quem está sorrindo agora?" Eu!! o/

O texto foi incrível, Junia, simplesmente por expressar o que os fãs de Nárnia sentem quanto aos livros, quanto a Lewis e quanto a tudo que os de fora falam =D

Kelmem disse...

Wow! Ótimo texto Junia!!!

Sabe, esse lance de "preconceito" rola muito. Li Narnia há pouco tempo, então ainda não sei se me considero um narniano :)
Mas eu sou fã das obras de Tolkien há muuuuito tempo, e da Trilogia do Anel não menos que as outras, portanto sei que sou muito mais conhecedor e talvez mais fã das obras dele...
Bem, o que eu ia dizer é que há um tempo atrás eu decidi fazer uma tatuagem, e como figura escolhi a Árvore Branca de Gondor, do jeito que é representada na bandeira do mesmo país, por achar um símbolo bonito e por, obviamente, ser fã da obra...
No começo eu até tentava explicar o qual era o significado pra quem perguntasse (claro que dependendo muito da pessoa que perguntasse), mas sempre faziam uma cara estranha, como se eu fosse louco, nerd, ou mesmo idiota. Hoje eu já falo logo: "é de um livro que li!", pronto, nem tento explicar nada. E pra quem ainda torce o nariz eu digo: "pelo menos tenho algo com mais sentido que uma estrela, uma borboleta, um dragão todo tronxo ou uma frase em inglês mal escrito...

Junia disse...

Pois é, Kelmem, não adianta muito argumentar. Muitas vezes parece que as pessoas só querem zombar, então é melhor ficar sem saber mesmo!

Josué Orrico disse...

Puxa, eu simplesmente amei o texto. Fazendo coro à Natália: expressa exatamente o que qualquer narniano sente e não consegue explicar. Muito mágico.

Concordo com Lewis quando ele diz que quando se está tão achegado com o cristianismo suas teorias simplesmente fluem involuntariamente nas histórias. Tanto que Tolkien não queria fazer alegoria nenhuma em SdA e acabou que a história é repleta de refêrencias bíblicas implícitas.

Junia disse...

Bingo, Josh!

Saulo disse...

ótimo texto junia! e agora comentei haahahha estava pensando para os proximos textos da semana lewis, vc escrever algo sobre a triologia espacial, o que achas?

keeper disse...

Excelente texto, Junia!
Tenho o mesmo sentimento que o seu. A verdade é que amo Nárnia e Aslam.
É algo mágico, meio louco, mas afinal, ser cristão também é loucura para este mundo.
Diante de um sorriso condescendente de quem me julga, ecoa em minh'alma um lamento e uma súplica: ah, se você soubesse!!!...
Abs narnianos

Reginaldo Tunisse

LoreLoves¨theLord disse...

this is our life ;)