segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Como C.S. Lewis pode te ajudar a não engordar

Post #2 da Semana C.S. Lewis

Outro dia eu estava comendo o meu bombom favorito, Ouro Branco. Eu tinha três deles. Comi um depois do almoço e depois passei a tarde inteira travando uma luta no meu íntimo. “Devo comer mais um? Devo guardar para amanhã? Que mal há em comer só mais unzinho?” A dúvida me corroeu durante todo o dia, até que me lembrei do meu autor favorito, o Jack.

C.S. Lewis, além de me arrebatar com As Crônicas de Nárnia e me colocar para pensar com seus livros sobre vida cristã, tem me saído um ótimo conselheiro sobre como perder peso. Ou melhor, sobre como não engordar.

Há alguns anos a imprensa noticiou que foi descoberta a razão pela qual as francesas são em geral tão esbeltas e elegantes, enquanto as americanas apresentam uma figura mais, digamos, rotunda. A explicação chega a ser óbvia: as belas europeias comem de tudo, porém em pequeníssimas porções. Já na terra do Tio Sam, a máxima “menos é mais” não significa muito. Lá, mais é muito mais mesmo! Super porções. Super promoções. Super gordinhos. Super doenças coronárias e diabetes. O estudo falava sobre as mulheres, mas pode muito bem se estender à população masculina.

Mal sabem os estudiosos que C.S. Lewis já falava sobre isso, à sua própria maneira, mais de 60 anos antes. Na década de 1940, ele escreveu uma trilogia de ficção científica cristã chamada comumente de Trilogia Espacial ou Trilogia de Ransom. Composta por três livros (Além do Planeta Silencioso, Perelandra e Aquela Força Medonha), ela narra as aventuras do linguista Elwin Ransom, para muitos inspirado no grande amigo de Lewis J.R.R. Tolkien. (sobre a Trilogia, os motivos que levaram Lewis a escrevê-la e a relação de Tolkien com ela, falarei em outra ocasião).

Em Perelandra, Ransom reflete mais de uma vez sobre a necessidade que temos de repetir alguma coisa que nos é prazerosa, e como essa atitude acaba estragando a coisa em si. Assim como eu fiquei na dúvida ante a possibilidade de comer mais um bombom, Ransom não sabe se prova mais uma das deliciosas frutas que comera em Perelandra, que é o planeta Vênus:


Quando deixou cair a cabaça vazia e estava prestes a puxar uma segunda, veio-lhe à cabeça que já não estava nem com fome nem com sede. E contudo o que parecia óbvio fazer era repetir um prazer tão intenso e tão espiritual. A sua razão, ou aquilo que comumente tomamos por ser a razão no nosso próprio mundo, era toda a favor de saborear de novo aquele milagre; a inocência quase infantil do fruto, os trabalhos por que passara, as incertezas do futuro, tudo era de molde a aconselhar essa ação. Todavia, havia qualquer coisa que parecia opor-se à "razão". É difícil supor que a oposição vinha do desejo, pois que desejo se afastaria de tamanha delícia? Por um motivo qualquer, parecia-lhe melhor não provar de novo. Talvez a experiência tivesse sido tão completa que repeti-la seria uma vulgaridade - como pedir para ouvir a mesma sinfonia duas vezes num dia.

Enquanto, de pé, ponderava sobre tudo aquilo, perguntando a si mesmo quantas vezes na sua vida na Terra tinha repetido prazeres não levado pelo desejo, mas em oposição a este e por obediência a um racionalismo espúrio, verificou que a luz estava a mudar.

(...)

Olhando para um molho fino de bolsas que pendiam por cima da sua cabeça, pensou com seria fácil chegar lá e enfiar-se uma pessoa naquele conjunto e sentir, logo no mesmo instante, aquele refrigério mágico multiplicado dez vezes. Mas foi detido pelo mesmo gênero de sensação que o impedira durante a noite de saborear uma segunda cabaça. Sempre detestara as pessoas que pediam a repetição da ária favorita numa ópera: "Isso só serve para estragar", fora o seu comentário. Mas isso agora lhe parecia como um princípio de aplicação muito mais lata e com mais profunda importância. Aquele desejo veemente de experimentar uma vez mais as coisas, como se a vida fosse um filme que se podia desenrolar duas vezes ou até mesmo fazer correr da frente para trás... estaria aí possivelmente a raiz de todos os males? Não: é claro que o amor ao dinheiro é que era assim chamado. Mas o dinheiro em si mesmo - pode ser que se lhe desse valor como uma defesa contra a sorte, uma garantia de se ser capaz de ter as coisas uma vez mais, um meio de fazer parar o desenrolar do filme.


Lewis era um homem à frente do seu tempo, e podemos notar isso nos trechos acima. Ainda que seja clichê chamar o dinheiro de “raiz de todos os males”, ele o faz sob uma perspectiva completamente nova. O dinheiro não é mau. Ele também não fala em ganância. Ele condena a vontade de ter o dinheiro com um certo motivo, porque é ele que permite às pessoas ter tudo aquilo de que gostam uma vez atrás da outra, ad infinitum. Isso se torna um vício, e os prazeres simples se tornam seu deus, perdendo seu valor e seu sentido.

Volto aos meus bombons. O personagem Ransom, depois de ponderar sobre o que o levava a querer repetir a prazerosa experiência de comer o fruto de Perelandra, chega à conclusão de que não deve comer outro. E nisso, devo dizer, reside a vantagem de ser um personagem fictício: é bem mais fácil resistir à tentação quando se é feito de papel e tinta. Mas eu firmo os pés bravamente. Obrigada, Jack. Com sua ajuda, me lembro que é melhor ter controle e não deixar os pequenos prazeres me dominarem.

Amanhã tem mais bombom.


*****

Não sei se você ficou interessado, mas eu recomendo veementemente a leitura da Trilogia Espacial. A obra está atualmente fora de catálogo no Brasil, mas você pode adquirir a coleção de 4 volumes, em português lusitano, pela Livraria Cultura (link para o primeiro livro da coleção; os demais estão relacionados mais abaixo na página, sendo que Aquela Força Medonha está dividido em 2 volumes).

8 comentários:

Anne disse...

tá tão chique que escreve até latim!!!
eu concordo, fui a duas festas de aniversário de criança nos dois últimos domingos e na primeira festa comi apenas dois salgados e um docinho (a batalha foi escolher qual) e na festa de ontem comi dois salgados e dois doces, é muito bom saber que a gente pode ter o prazer de comer sem estragar a figura!!!


regialen

Walter Cruz disse...

Lendo seu texto, minha mente correu em duas direções distintas: uma lembrança de um trecho de C.S. Lewis e uma reflexão.

Lembrei-me das Cartas de Screwtape, onde ele relatava de uma mulher que pelo seu apetite por tudo 'em porções' pequenas tornava a vida dos outros um tormento. Lembra dessa?

A segunda iteração me levou a continuar de certa forma algo que eu já pensava antes: Em como as ações que tomamos com o corpo tem impacto maior do que supomos. Explico-me: antes da queda, por meio do espírito o homem era senhor de seu corpo. Hoje, infelizmente, o pecado cria um racha que nos faz quebrar em várias direções.Qual seria a significância real de atos como o batismo e a eucaristia se isso é algo que fazemos apenas com o corpo? Veja bem, não estou dizendo que sejam atos que não sejam espirituais, mas apenas que são atos que não temos como perceber espirituais de forma a serem provados (ah, mas isso tiraria toda a graça e fé do ato). Basicamente o que quero dizer é que haverá um tempo onde seremos plenos de novo.. e comer um pão e vinho.. dobrar os joelhos.. comer um bombom.. será tudo um ato espiritual mesmo. Não sei se me fiz claro o suficiente :(

Por isso também penso que há grande valor nas pequenas ações e nos pequenos atos que fazemos com o nosso corpo também. "Pois se nas riquezas injustas não foste fiéis quem vos confiara as verdadeiras?"
e também quando Jesus fala sobre ser fiel no pouco.

Colocando de outra forma ainda: um dia descobriremos que não havia vida secular e espiritual. e tudo o que fizemos no corpo, foi de fato, feito por nosso eu real.

Enfim, espero que você consiga montar algum sentido de todas essas palavras.

Natália disse...

Deu vontade de ler, Junia! *-*
E deu vontade de comer Ouro Branco =P

Josué Orrico disse...

Ah, Puxa, como eu adoro esses seus textos, eles são tão fluentes!

E, sinceramente, nunca li nada do Lewis além das Crônicas. Morro de vontade de ler, mas não sei o que pesa mais: a preguiça ou a falta de dinheiro. Talvez os dois. Ou Talvez nenhum.

Mas vem cá, você escreve contos, crônicas ou coisas parecidas também??

Mima disse...

*_* amei

Nádia disse...

Ahhhh gostei muito do texto!! Sou sua fã!!
Tbm gostei muito do q ele falou sobre o dinheiro.
Esse periodo estudamos sobre motivação e como ela impulsiona os nossos comportamentos e atitudes, será q o Lewis já escreveu alguma coisa sobre motivação?

Bjãooooooo...saudades!

deniti ---> quase q sai um denikiti! :p

Kelzi disse...

ahhh.. na hora q/ comecei a ler, me ofereceram um brigadeiro... e eu já tinha comido, um pedacinho de uma barra de choc (nunca como a barra de uma vez)...
tsc..
#fail.. hahaha

hednspe

Morpheu disse...

Ih.. acabei de comer seus chocolates =P

Muito bom seu texto meu amor.
O jeito que vc escreve sempre me faz querer ler mais um pouquinho, mas vou me controlar e deixar pra ler mais um pouco amanha ;)

amo vc

"bragrac"